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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Devoração dionisíca: o terceiro nascimento de Dioniso

Aqui, o povo é tão agradável; todos andam nus e são deveras alegres, e o motivo disso é claro: o vinho, aqui, nasce em árvores!

Dioniso segura um pedaço de tronco de pau-brasil (Gemini)
Dioniso segura um pedaço de tronco de pau-brasil (Gemini)

A mitologia e os mitólogos narram que Dioniso, o deus das festas e do vinho, teria nascido duas vezes. Num movimento devorativo, farei-o nascer uma terceira vez, agora, no Brasil. Antes, porém, quero explicar ao leitor como Dioniso pode ter nascido duas vezes.

O primeiro nascimento de Dioniso se deu por uma crise de ciúme que se abateu sobre sua mãe, Sêmele, quando esta ainda estava grávida. Foi Hera — esposa de Zeus — que implantou em Sêmele o fugaz sentimento do ciúme. A propósito, eis uma informação importante desse mexerico divino: Zeus é o pai de Dioniso; portanto, aqui fica claro que a moralidade da Grécia Antiga aceitava sem problemas um tipo de regime poligâmico. Em todo caso, Hera era uma deusa, Sêmele, uma mera mortal.

Hera incitou ciúme em Sêmele sugerindo-lhe que Zeus não a amava suficientemente porque nunca havia aparecido para ela em sua verdadeira forma divina. Sêmele então foi até Zeus pedindo-lhe que se mostrasse. Como toda boa mulher, Sêmele também era muito teimosa: “Ou você se mostra em sua verdadeira forma, ou pode me esquecer”. Zeus respondeu: “Infeliz mortal!” e, tendo aparecido para ela como deus, Sêmele morreu. Pouco antes de morrer, porém, deu à luz Dioniso.

Dioniso era apenas um pequeno feto. Então Zeus cortou a própria coxa e colocou-o dentro de si. Desse modo, Dioniso pôde terminar o período gestacional dentro de seu pai. Por conta disso é que se tornou um deus e, portanto, imortal. Desde muito novo, firmou-se como um garoto risonho e, tendo sido ele o primeiro a plantar uma videira, mudou o mundo a partir da criação do vinho. Foi assim que Dioniso se tornou o deus do vinho e das festividades. Aonde fosse, era recebido de braços abertos e arrastava atrás de si sátiros com chifres, pés de bode e rabos de cavalo. Eles viajavam por toda parte, rindo de tudo, bebendo o tempo inteiro enquanto dançavam e cantavam.

Vez ou outra, ensinava reis a cultivarem a videira, mas logo se arrependia, porque, por mais que os avisasse da necessidade da moderação, os homens bebiam descontroladamente e depois cometiam todo tipo de atrocidade. Chegaram a matar Icário, na Ática, quando toda a população ficou completamente embriagada e sem nenhuma consciência de suas ações. Assim se firmou que o vinho não traz apenas felicidade e alegria, mas também dor e sofrimento.

Certa feita — agora conto eu —, Dioniso e seus sátiros zarparam numa nau. Eles tinham como destino o Egito. O mar agitado, porém, fez com que ele e sua trupe fossem arrastados para uma ilha totalmente desconhecida pelo mundo antigo. Sem demora, a ilha foi descoberta por um grupo de colonizadores. Olharam de soslaio para Dioniso e o fizeram escravo. Os portugueses não se animaram muito com seu tipo despojado e, além disso, viram no seu vinho uma ótima oportunidade de negócio. Como de praxe, roubaram-lhe o vinho. Dioniso foi forçado a se tornar um lacaio. Pouco tempo depois, chegou onde hoje fica Salvador.

Uma índia muito bonita colocou os olhos em Dioniso e, sussurrando-lhe numa língua desconhecida, prometeu-lhe a liberdade; ele não pôde entender as palavras, mas compreendeu o sentimento. Numa noite muito quente em que os portugueses se embebedaram com o vinho de Dioniso, a índia abriu a porta de seu cárcere e os dois fugiram Brasil adentro. A índia seduziu Dioniso. Tatuou-lhe o rosto e o presenteou com muiraquitãs. Dioniso ensinou danças e cânticos gregos para todos os índios que encontrava. Casou-se com a indiazinha. Aos poucos conseguiu se inteirar da língua dos índios e foi adorado por todos.

Dioniso contava para os índios sobre a Grécia. Todos riam muito e achavam que ele era um exímio contador de histórias. Certa feita, um cacique sangrou um pau-brasil para dar início a um ritual sacro. Dioniso ficou maravilhado com a cor vermelha que escorria pelo tronco da árvore. Dioniso creu que o líquido avermelhado do pau-brasil era vinho. “Aqui, o povo é tão agradável; todos andam nus e são deveras alegres, e o motivo disso é claro: o vinho, aqui, nasce em árvores!”.

Ao beber o sangue do pau-brasil, Dioniso passou muito mal. Banhando-se num rio para tentar se curar, acabou se afogando e nunca mais foi encontrado. Isso foi motivo de muita tristeza para a índia que o amou e para os indígenas que havia encontrado pelo caminho. Em verdade, porém, Dioniso não chegou a morrer. O sangue do pau-brasil apenas o paralisou por séculos. Seu corpo ficou se arrastando pelas correntezas de um rio para o outro ao longo de todo o território brasileiro. Na semana passada, porém, Dioniso renasceu pela terceira vez. Dizem tê-lo visto acordando numa encosta do rio São Francisco e foi uma festança avermelhada num domingo à noite.