Ensaio
Medo e ignorancia: giro decolonial
Antes do super-homem, o macaco
Em um país tão grande como o Brasil, pode-se pensar que nossos ancestrais, que aqui viviam muito antes da chegada dos portugueses, viam em todo o território um grande mistério: os ventos uivantes, as chuvas torrenciais, os raios e trovões, os incêndios em uma mata fechada e densa. O homem certamente tinha medo da natureza e por isso aprendeu a respeitá-la como parte de sua própria natureza. Esse medo ainda vive em nós, brasileiros, mas, tendo devastado todo o território e visto que não havia mistério algum, o respeito natural se perdeu e tornou-se sobrenatural. Todos sabem que a fauna nacional precisa dos cuidados do Estado e também da atenção social para manter-se de pé. A ignorância em relação aos eventos naturais e à necessidade de preservação foi dissipada. Por mais que alguns ainda continuem na obscuridade, em geral são aqueles que se aproveitam da natureza para encher os bolsos: esses são, na verdade, dissimulados, não ignorantes. Enfim, sempre que a ignorância se dissipa, o medo acaba, e o homem precisa redirecionar sua atenção para os novos objetos em que sentirá medo. O medo de deus continuará sempre vivo, pois pensa-se que sua existência e sua não existência estão em uma balança de igualdade, justamente por faltarem provas e evidências para ambos os lados. Essas duas posições não estão, porém, em pé de igualdade. Ninguém acreditaria em mim se eu dissesse que nos céus existem também o Saci-Pererê e a Mula Sem Cabeça. A única diferença é que não existem livros antigos que espalharam a doutrina do folclore, e esta também não foi inculcada como verdade na cabeça das crianças, como acontece constantemente com Deus por obra da religião.
Quão superior seria nossa cultura se as crianças crescessem aprendendo sobre as lendas brasileiras, desde que fossem ensinadas não como verdades, mas como lendas, frutos da nossa cultura! Nenhuma ignorância deve ser permitida, a não ser aquela que é ensinada em nome de fortalecer a verdade: “ora, sabemos que o Saci-Pererê é uma lenda e que ele não existe, mas queremos cultuá-lo mesmo assim!” É o que devemos esperar ouvir de nossas crianças do futuro, caso, felizmente, não nos tornemos o evangelistão, o que, infelizmente, certamente não ocorrerá. A celebração de deuses cuja não existência se sabe conscientemente é, por conseguinte, uma celebração da capacidade criativa do ser humano, que liga as gerações atuais às antigas para, enfim, transmitir conhecimentos seguros ao futuro: por mais que um par de homens primitivos tenha considerado o Saci-Pererê real, agora, com o alcance de um conhecimento mais elevado, em uma humanidade mais civilizada e inteligente, ensinaremos nossos filhos de que o Saci tem a estética, a coragem e a presteza necessárias para ser festejado, mas de que não iremos além disso. Faremos o mesmo com Jesus, Buda ou qualquer outro deus do grande esquadrão, levados a sério por grande parcela da população. Nós apenas os celebraremos em nome da festa, nunca em nome da verdade. Isso porque não temos medo deles e tampouco somos ignorantes.
Certa vez, ouvi um homem que levava muito a sério a história do Saci-Pererê. Desses pobres coitados que, em uma conversa de um minuto e meio, dizem “graças a Deus” mais de dez vezes. Santa contradição! O mesmo homem que leva Jeová a sério é aquele que diz ter visto o Saci com os próprios olhos (dou minha palavra de que não estou inventando). Mas é um disparate que a ciência seja tão desprestigiada no imaginário popular. O pobre coitado, que vive sem consciência elevada alguma sobre as coisas, é também o mesmo que consome antibióticos assim que uma pequena dorzinha afeta seu corpinho. Esse homem é febril, absolutamente animal, e é urgente que ele retorne ao seu próprio macaco introspectivo para duelar contra ele, cobrando-lhe alguma verdade, algum reinício, alguma realidade.
A cultura e o medo solaparam e ceifaram qualquer sentimento de verdade, qualquer autonomia intelectual e qualquer ideia elevada: proibiram que o próprio homem pudesse dar sentido à sua própria vida. No Brasil, as cabeças de repolho refogadas na crença tosca em Nossa Senhora Aparecida jamais podem alcançar o super-homem, essa ideia tão bela, esse estado tão supremo, tão radiante e livre. O problema é que se trata de um sentimento europeu, muito difícil de ser realmente alcançado por um brasileiro. Por isso, prego, antes do super-homem, o retorno ao macaco, porque no Brasil ainda não nos tornamos homens. Se o super-homem está ao final da corda e no começo está o animal, devemos antes dividir esse homem em algumas partes. Nietzsche se referia ao homem europeu, mas o brasileiro é um povo totalmente diferente: muito mais fraco, portanto muito mais compassivo e, na linguagem dele, muito mais decadente…
Terrivelmente decadente! Não é possível ao brasileiro médio avançar até o super-homem; esse acesso lhe é impossível. Ele precisa, portanto, antes disso, retornar ao macaco: sentir-se de fato um animal, tal qual ele é. A condição para alcançar o super-homem é entender-se, antes, como um homem-animal. Mas o brasileiro se vê como filho de Deus! Que miséria! Que lástima! Que falta de sentido! Que distância da realidade! Fora isso, para o inferno a ideia de super-homem: mera ideia de colonizador, mera ideia de alemão. O brasileiro é uma coisa muito mais simpática, embora pudesse usar essa simpatia para dar menos graças a Deus e mais graças a si mesmo e aos seus ancestrais, num espírito de giro decolonial: conservador, não do cristianismo, mas do anticristianismo, ou seja, um lutador pela ideia de que, não tivessem Colombo, Pedro Álvares Cabral ou o não menos comprometedor De Las Casas chegado aqui, nosso povo não teria se curvado a essa infame religião.
É nesse sentido que, em antítese a essa desgraça, considero-me argentino. Explico.
Nada ofende mais um brasileiro médio do que um compatriota fazer referências positivas aos argentinos (seria como um francês se dizer inglês ou um inglês se dizer francês). No meu caso, atenho-me mais ao polemismo intelectual do que ao fato de ser argentino. Sendo assim, digo de peito aberto: sou argentino! Um argentino ateu! Que disparate! Que infâmia, que ingratidão, que traição! Mas eis aí a perda do medo e o fim da ignorância: o brasileiro precisa transcender a si mesmo, perder o orgulho de ser um pobre coitado e esquecer a falsa ideia de que Deus é o seu pai. “O brasileiro não desiste nunca” é uma ideia bem fascista para fazer com que o trabalho nunca tenha descanso. Pois estou aqui para anunciar que desisti! Fui o primeiro? Certamente que não. Há outros tão infames quanto eu, e isso é consolador. O Saci-Pererê, por exemplo, assim que escuta tais bobagens, desaparece no meio da floresta. E o que vocês acham que o Saci faz no meio do mato, a não ser admirar o macaco? Tal como o macaco, o Saci não é bom nem mau; ele é antimoral, antieuropeu, anticolonial. O brasileiro, portanto, pode inverter a corda de Zaratustra e dizer que o animal está mais perto do super-homem do que o próprio homem: não há homem brasileiro que esteja próximo do super-homem sem que antes se torne macaco. Esqueça o futebol, as partidas de baralho, os dias quentes e meta-se na mata, como o Saci. É somente assim que poderemos começar tudo de novo, com a esperança renovada e vívida de que agora tudo poderá funcionar melhor, ser melhor, sem Aparecidas ou Desaparecidas.