Ensaio
Um breve diálogo entre Julio Cabrera e Antonio Abujamra
Vai te catar, Abujamra!
Abujamra pergunta: Julio Cabrera, o que é a vida?
Julio Cabrera: A soma de nascimento terminal, entrevida e morte pontual.
Abujamra: Julio Cabrera, que diabos você acabou de dizer!?
Cabrera: Leia a página 104 do meu livro Mal-estar e moralidade, caro Abujamra.
Na plateia, surge outro Antonio que segura um tanto emocionado o referido livro. Ele então lê a referida página…
Os seres humanos, e em particular os filósofos, chamam de ‘vida’ a entrevida; mas, a rigor, vida é tudo: nascimento terminal + entrevida + MP [morte pontual], tudo isso junto e de forma inseparável.
Julio Cabrera: Te explico tudo, colega Abujamra. O nascimento terminal é um tipo de característica terrível que tudo que nasce está submetido, ou seja, ao se nascer, deve-se pagar a vida com a morte e a morte é vivida de maneira estrutural (Morte Estrutural, ME), pois a cada instante morremos um pouco. Assim sendo, uma vez nascidos, temos de morrer, por conseguinte, também temos que sentir dores físicas e psicológicas; além disso, vivemos tentando encontrar ideais afirmativos para não sofrermos e não morrermos (chamei isso te terminalidade do ser que é um estado estrutural da nossa existência e nada tem a ver com a expressão mortalidade do ser). Simbolicamente, tudo que fazemos tenta refrear a morte. Isso explica o nascimento terminal, que, portanto, é parte da estrutura do nosso ser. A dita entrevida é tudo que se passa entre o nascimento terminal e a morte pontual, essa nossa conversa, por exemplo. Já a morte pontual (MP) se dá no instante da morte. A vida, portanto, é a soma do nascimento desgraçado que tivemos, do que fazemos durante a vida e também do próprio momento da morte. Grosso modo, a vida é um mal-estar estrutural.
Abujamra: Julio Cabrera… O que é a vida!?
Julio Cabrera: É uma coisa efêmera do qual independe se ela dura cinco minutos ou cinquenta anos.
Na plateia, o outro Antonio interrompe o diálogo para ler emocionadamente mais um trechinho da página 104…
Do ponto de vista estrutural, é irrelevante que a consumação da terminalidade do ser demore minutos ou séculos (assim, as noções de ‘vida longa’ e ‘vida curta’ perdem o sentido […] nosso ser não é algo que precisemos ‘realizar no tempo’. Apenas as nossas atabalhoadas manobras estantes precisam de tempo para se desenvolver.
Abujamra: Julio Cabrera… O que é a vida?
Julio Cabrera: Vai te catar, Abujamra!
Na plateia, o outro Antonio ri e aplaude.