Ensaio
Novum Manifesto Antropofágo
Paródia a Oswald de Andrade
Continuamos à deriva do estrangeirismo. “Continuamos”, dá impressão de que em algum momento quisemos legitimamente nos libertar dele. Não quisemos. “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”, dizia-se no início do primeiro manifesto oswaldino.
Há entre nós, mais gente que idolatra radicalmente a cultura estrangeira do que gente unida que a digere e que busca transformá-la. Aquele antigo manifesto trazia uma posição iluminadora, tipo de atitude otimista; este, traz uma atitude introspectiva e axiologicamente nula, portanto, pessimista.
Feito o introito, vamos ao imbróglio.
A serpente vomitou. Uma mosca ali pousou. Uma larva nasceu. Nenhuma generatio aequivoca. Tristeza católica.
Fomos corroídos por toda parte. Da pele esbranquiçada às lojas de brinquedo. Já entraram, meus caros compatriotas, numa loja de brinquedos? Reparem bem. O mal-estar pueril do espírito colono começa ali. Monicas e Joréls não são páreos para comer homens-aranhas e ratos felizes. Mikeys, Sputikis, Coisas Strangers.
Tupi, or not tupi that is the question. Não há nenhuma question colocada nas ruas. O floreio é simbólico e universitário. Morremos com a cara caída em cima de nossos livros (traduções muito bem-feitas!). É um país de batizados, catequizados, colonizados; “gente civilizada”, dizem.
Reformulo a questão, por conta do espírito, não é nada pessoal:
Trumpí, or not Trumpí, that is the question.
Um manifesto sem revolta não apraz e de nada serve. Faço questão, pois, de instruir a revolta. Não basta inverter o papel do devorador e do devorado se não houver boa digestão.
Não sei se perceberam vocês, mas já faz tempo que vomitamos aquilo que engolimos.
Um novíssimo manifesto de antropofágia… Quem diria que seria preciso, novamente, gritar aos céus que a felicidade já havia sido descoberta por nós? Pois há quem queira cobri-la novamente.
Agora será ainda mais difícil engolir aquilo que já foi engolido e encontra-se vomitado, sim, vomitado, meus companheiros. Engolir o próprio vômito. Tipo de recomeço cultural. Sem esquecer, é claro, dos bichos, espermas e da tristeza papal.
Mas há aqueles que agem com uma imagem trágica e agônica a que o senso-comum atribui aos mãos-de-vaca (coitadas das vacas). Dizem assim: “para vomitar trancam os dentes”. Para que o manifesto flua bem aos olhos do leitor, é preciso repetir: “para vomitar trancam os dentes”, inclusa-se aí: “e não deixam passar nadinha”.
Comecemos, pois, a engolir a nós mesmos. Aceitemos que tudo deu errado e que não nos fizemos tupí, mas sim trumpís. Aquilo que de fora veio, segue muito bem e sempre sendo muito valorizado.
O instinto bostanarista — não se ofendam os moderados, pois estes estão vomitando muito bem — é nauseante e fruto de um grande mal-estar; o mal-estar dos ressentidos. Ricos no bolso, porém infelizes no sorriso. Gente ruim de verdade.
Quê é esse fenômeno senão a vontade de ser um animal? Pois sejamos todos juntos, animais. Nós aceitaremos a animalidade de modo consciente; eles, tristemente, de modo inconsciente. Seus corações estão ocultos por fantasias religiosas.
Nós, não. É claro que não. Pois continuamos fazendo Carnaval. O anti-petismo mesmo, é essencialmente carnavalesco, embora se apoie em bufões. Vê que isso que vomitamos é o próprio bostanarismo?
O que pensamos devorar não estava bem cozido e agora nos devora por dentro; de dentro para fora Nitis e Schopenhauers nos corroem. Tão belos são os que os entendem e os deglutinam; tomam chá com o dedo mindinho levantado e gargalham como só as pessoas ricas sabem gargalhar.
Aos que estão digerindo muito bem, fiquem com o velho manifesto de Oswald; aos que vomitaram, oportuniza-se olhar para este novo.
Sardinha foi-se, agora é a vez do bostanarismo (tal como Sardinha, é do espírito deste último, zarpar… não em naus, mas em aviões).
Olhemos para o bostanarismo vomitado ali no chão.
Não é pessoa não, é um espírito que paira no ar; tipo de ideia que se tornou sentimento; neoplasma maligno e anti-carnavalesco, portanto, maior dos problemas digestivos.
Não devemos engoli-lo, mesmo tua origem primitiva tendo sido internacional… trumpí, colonialí, escravagí…
ABYA YALA!
RETORNO AO MACACO!
PAU-BRASIL, VERMELHO, VERME.
(Poesias são bonitas porque são falsas, aprendi tal coisa dum filósofo amável).
Não havia qualquer necessidade de devorarmos nada antes de Colombos e Cabrais aqui pisarem. Digerimos Las Casas por compaixão, mas não perdemos a raiva primitiva que por ele tivemos.
Contradições da pele de um homem branco girando em looping decolonial.
Há algum “índio” que ainda vive dentro de nós? Apenas ele poderá ritualizar o problema vomitado que encontra-se aí no chão.
Há bichos nesse problema, pois ele trouxe das profundezas de nosso estômago alguns antigos inimigos que pensávamos estar derrotados.
Mas é chegada a hora de renascer, ou seja, voltarmos em espírito a 1499, 1498, 1497… Até encontrarmo-nos com nosso macaco amoral. Ele era feliz, felicíssimo.