Ensaio
A inexistência da coerência absoluta
A coerência nada mais é que um fruto da comodidade: o que é cômodo torna-se coerente e defensável
A coerência pode ser compreendida como um tipo de atitude harmônica em uma rede de ações específicas ou mesmo utilizada para análise de concepções artísticas. Por exemplo, pode-se dizer que uma canção é coerente com sua proposta se mantém um ritmo esperado, sem quebras bruscas de velocidade, cadência e tons. Pode-se também pensar que a coerência é a harmonia entre as ações e as ideias, ou seja, quando alguém parece agir conforme suas ideias ideológicas, econômicas ou estéticas. Mas a filosofia pode problematizar a própria noção de coerência. Por conseguinte, podemos nos perguntar se o que entendemos por coerência já é, per se, coerente.
Quero defender aqui que não existe coerência absoluta nas ações humanas e, a rigor, esperar ou cobrar tal coisa das pessoas que nos rodeiam é ingenuidade. A frase normalmente dita pelo senso comum para desafiar a moralidade de alguém é: “toda pessoa tem um preço”. Do mesmo modo, podemos pensar que toda coerência tem um teto, um ponto em que se aceita retroceder e abrir mão das próprias convicções, mesmo que isso signifique sacrificar a própria honra. Aqui, entra em cena o próprio valor que alguém dá para a honra e se a considera relevante dentro de uma rede de ações. Alguém pode ser tão abertamente afeito a mudanças e a ser invadido por opiniões alheias que tais motivações seriam muito mais fortes do que qualquer valor que se dê à honra de ser coerente.
Há vantagens em quebrar a coerência entre o que se faz e o que se pensa. Se o prisioneiro de Platão no famoso Mito da Caverna fosse manter sua coerência, jamais haveria deixado sua condição e ascendido para o mundo das ideias verdadeiras. Peço gentilmente que o leitor não compreenda isso como um elogio aos devaneios idealistas de Platão, como se eu estivesse a defender que deixar a coerência implicasse alcançar a Verdade. Utilizo aqui a imagem do famigerado mito apenas pelo seu potencial didático. Como dito em um texto anterior, a coerência é um tipo de dogmatismo. Aqui quero pontuar sobre qual tipo de coerência tinha em mente quando escrevi tal coisa. Referia-me, portanto, à coerência radical; aquela que não é abalada por nada, tal qual os religiosos, como quando colocam Deus acima de todas as coisas e querem fazer com que sua verdade prevaleça acima da lógica, ou quando radicalismos ideológicos tomam o púlpito para atacar sem deixar qualquer espaço para se discutir com seus rivais.
A coerência exige sacrifícios. Abrir mão da coerência, porém, pode ser uma benesse em prol da tolerância. A atitude radicalmente coerente faz concessões a um viés ultrarracionalista. Mas o ser humano é também um fosso de contradições. Isso pode ser inclusive observado em nosso próprio corpo.
Nossa coerência é particularmente enfraquecida se somarmos a essa reflexão o nosso poder de dissimulação. Sorrimos sem achar nenhuma graça; aceitamos quando queremos negar; trabalhamos sem nenhuma vontade de trabalhar; vamos quando queremos ficar; dizemos estarmos felizes quando na verdade estamos tristes. A espécie humana inevitavelmente precisou fingir para sobreviver. Não sabemos o que somos e nem o motivo pelo qual vivemos, mas queremos esperar que as pessoas à nossa volta sejam coerentes em suas ações. É muito instrutivo quando Jesus diz: “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?” (Mateus 7:3). Somos dissimuladores e incoerentes por natureza.
Essa discussão ganha espaço e relevância especialmente na presente época pós-período eleitoral. Por exemplo, as pessoas esperam que os pobres votem na esquerda e os ricos na direita. Mas o voto na urna não reflete o estilo de vida de alguém. Ademais, é prepotente o pobre que vota na esquerda pensar que seu irmão, igualmente pobre, que votou na direita, seja incoerente. Num olhar retrospectivo e numa análise profunda, qualquer pessoa poderá descobrir suas incoerências. A verdade é que a coerência é um tipo de objeto de disputa (tal como as teorias científicas). Resumo isso em uma pergunta: quem define o que é a coerência? (Isso é o mesmo que perguntar: quem define o que é harmônico?).
O mundo não veio pronto. Não há bem e mal em sentido metafísico (há sim bem-estar e mal-estar). Do mesmo modo, a coerência não é uma entidade que paira no ar como um tipo de substância absoluta e intocável. Há, portanto, uma construção intelectual para se estabelecer o que é considerado coerente. Também é assim com a Verdade, pois não só a Verdade é relativa, mas também a coerência.
Pensamos que seja incoerente que grandes filósofos e moralistas de outrora fossem também senhores de escravos. Mas eles apenas seguiam a normalidade cultural de suas épocas. É nesse sentido que devemos nos perguntar sobre quais são as incoerências que hoje nos rodeiam, mas das quais não temos consciência de sua absurdidade. Tenho algumas sugestões: achamos completamente normal o transporte de bovinos e suínos até o abatedouro e comermos carne; não vemos nenhum problema em regularmos nossas ações tendo o lucro como base elementar para todas as nossas finalidades; não estamos nem aí para o fato de as igrejas católicas não permitirem autoridades mulheres; achamos absolutamente banal que pessoas durmam nas calçadas enquanto o lobby imobiliário mantém milhares de casas e apartamentos vazios; não nos revoltamos contra o número ínfimo de bilionários que existem no mundo e o quanto eles pressionam cada vez mais a existência da desigualdade. Todas essas coisas são tidas como normais e coerentes, e a maior parte das pessoas não está preocupada com elas.
Em um nível mais pessoal e individual, achamos absolutamente normal o uso de roupas, o consumo de comida ruim e industrializada, o fato de não sermos nós que damos fim ao nosso próprio lixo. Tais coisas apontam para a ideia de que a coerência nada mais é que um fruto da comodidade. O que é cômodo torna-se, portanto, coerente e defensável; resta, porém, saber quem está cômodo com as coerências que nos rodeiam. Uma música com quebra de ritmo causa tanto mal-estar quanto o ativista que quer dar fim à existência de bilionários. É claro que são tipos diferentes de mal-estar; a equiparação é apenas epistemológica e didática. Se a coerência é um tipo de dogmatismo, queiramos, portanto, sermos incoerêntes, infieis, insurgentes, contraditórios, enfim… cientes de nossa vanidade…